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Uma viagem despretensiosa pela minha intimidade. Registros esporádicos de quando a vontade de escrever me arrebata. Espaço para compartilhar o meu olhar com os que visitam este lugar.
Cappuccino com pão de queijo;
Milkshake de ovomaltine com calda de morango;
Água com gás (além de gelo e limão);
Cerveja com Carnaval de Olinda;
Sinuca com boteco;
Beijo na boca com whisky;
Perfume com suor;
Sexo com música de Janis Joplin;
Pé descalço com areia de praia;
Pink Floyd com pôr-de-sol na estrada;
Música pra Bambam, que me faz sentir a (des)medida do que é importante:
"Quando amanhecer será
Para iluminar você
Vai anoitecer o dia
Se não vier
Mas se for presente
Tudo iluminará
Meu humor, meu coração
Como deve ser se
Ser como Deus quer for
Milagre, resignação
Roupa colorida
Alegrias às vistas,
Indecência, indiscrição
Seu cheiro me achando
Minh’alma perdida
Direi que é céu no chão
Quando anoitecer será
Para lhe fazer dormir
Estrelas que nem brilhantes
Para lhe vestir
Vai saber que Deus fez
As damas da noite
Preparando o seu buquê
Como vai dizer não
Se tudo o que eu vejo
Está aqui pra lhe servir
A mais bela roupa
Roupa de ir à festa
Coloquei pra lhe esperar
Disco na vitrola
Uma vela acesa
E a lua mais cheia
Quando o sol nascer será
Para desenhar você
Ou será você que virá
Pro sol nascer."
Uma passada despretensiosa na locadora rendeu bem. Três bons filmes. O primeiro, uma indicação confiável: O Homem que Desafiou o Diabo. Divertido e criativo. Uma viagem inusitada (e bem-humorada) pela cultura sertaneja, acrescentando ingredientes pitorescos como o cabaré, o paladar (inclusive sexual), a honra, a desonra, picarices, coloquialismos, medievalismos armoriais, lirismo e ternura. Além de botijas, um Preto Velho, espíritos e o “chifrudo” em pessoa. Aliás, boa interpretação de Marcos Palmeira que conseguiu disfarçar o sotaque carioca e convencer o público (leia-se eu), na pele de Ojuara. A espevitada Dualiba consolida o talento de Lívia Falcão e tem até uma participação imperdível de Otto. Hélder Vasconcelos faz até a gente gostar do Capeta franzino, irreverente e carismático que ele interpreta.
O segundo, Mãos que Curam, produção espanhola, fala sobre um médico “bestializado” pela profissão, que abdicou da sensibilidade no trato com seus pacientes, até se deparar com um momento de perdas e reflexões. Uma situação extrema reverte a sua postura e leva-o a reavaliar sua vida e sua profissão. O filme é tocante por retratar o dia-a-dia dos pacientes, as perspectivas ou a falta delas, as doenças do corpo e da alma e a capacidade humana em ser solidário.
O terceiro é um filme especial. A sinopse me chamou atenção embora ainda não tivesse ouvido falar dele... O fato de ser uma produção da O2, de Fernando Meireles, dá credibilidade à película, daí não hesitei em locar. Boa surpresa! Gosto de enredos em que as vidas se cruzam sem obviedades e sem que os envolvidos percebam diretamente, numa trama inteligente e plausível. Na primeira parte, acompanhamos a vida de Ênio, um funcionário da companhia que regula o tráfego de veículos em Sampa. Um homem solitário, reservado, cuja rotina é monótona. Ele desempenha bem o trabalho, percebe o trânsito com propriedade e até teoriza sobre o assunto ao relacionar o fluxo das vias com a termodinâmica dos fluidos (!). Essa parte chega a ser poética (uma poesia quase crua)... Apesar de conviver com o controle do trânsito, com a cadência dos semáforos, com a logística dos setores imaginários que esquadrinham o perímetro urbano, Ênio não administra bem a sua vida pessoal. Não sabe lidar com seus sentimentos, não sabe demonstrar afeto, não é espontâneo. Teve uma filha que não conhece e um amor perdido no tempo. Aliás, a vida dele parece ter parado no tempo e o movimento é alheio, resumido aos monitores do tráfego urbano, ao qual ele se debruça em praticamente todos os seus dias. Após um acidente de trânsito (ironicamente), a vida dele toma outro rumo.
O ambiente do filme é retrô. No começo, é difícil localizar em que época se passa. Uma São Paulo frenética, alterna-se com a cidade do fim de semana, em que as ruas são liberadas para o lazer, para caminhar, andar de bicicleta, de skate, enquanto os carros desaparecem. Uma cidade moderna abriga apartamentos que remetem a um outro tempo, com tubulações de ferro, assoalhos de tacos e muito espaço interno. Realidade que às vezes a gente até esquece, quando se depara com os cubículos de hoje.
Noutra parte da história, conhecemos Pedro e Teresa. Apaixonados e prestes a morarem juntos. Pedro é lacônico, reservado e também “respira” seu trabalho, porém, ele gosta muito do que faz, trabalha com prazer, é afetuoso, doce e passional. O mesmo acidente causa uma reviravolta na sua vida, um sofrimento mudo que o transfigura. Até que ele conhece Lúcia...
Ênio e Pedro têm qualificação técnica. No entanto, o primeiro reproduz as diretrizes de um sistema, que está acima dele (num certo momento ele usa o sistema a seu favor), enquanto Pedro desenvolve um trabalho quase artesanal que envolve criação, harmonia e beleza. Ele sente a matéria-prima, toca e lê as formas, numa perspectiva lúdica.
Último ponto: trilha sonora irretocável. Além dos sambinhas de Sampa, destaca-se a música cujos versos arrematam o filme: Eu não tou à toa nesse mundo/Eu tou pra tudo/Só vou deixar meu coração/A alma do meu corpo/Na mão de quem pode...
Engraçado é que tem um assunto do qual eu nunca falei aqui. É um tema controvertido: que envolveu muita dor, acompanhada de muita emoção. Falo do episódio de parir. Quando eu soube que estava grávida, além de ficar feliz, depois de quase um ano de tentativas, eu pensei: “Ai, como ele vai sair daqui!?” Eu sabia como, mas a situação dá um medo... Eu sempre quis ter filho por parto natural. Imaginava que seria como a minha mãe, que já chegava ao hospital botando a cria pra fora. Engano: o processo foi induzido, por causa de uma diabetes gestacional, e passei quase quinze (!) horas em trabalho de parto. Pensei que iria morrer de tanta dor e já tava entregando a alma pra quem quisesse (caso Deus estivesse muito ocupado...). Sem exageros, eu pensei que meu filho iria ficar sem mãe. Não dá pra descrever a dor, é inútil tentar, por isso nem vou me ater a essa parte. A questão é: tem dores que a gente escolhe. Horas de dor representam pouco diante da maravilhosa sensação de estar com uma vidinha crescendo na barriga, de sentir o bebê mexendo, de vê-lo pela ultrassonografia, de imaginar a carinha dele e finalmente estar com ele nos braços. Primeiro aquela criaturinha toda cinzenta, parecendo que tinha sido mergulhado no cimento fresco (perdão pela aparente falta de sensibilidade), chorando, entrando em contato com o mundo exterior pela primeira vez. Depois aquele bebê rosado, tranqüilo, bochechudo no seu colo. Chorei deveras. Emoção indescritível. Resumo da ópera: algumas dores valem a pena porque os amores significam muito.