
A Ceça e Sérgio
Certos episódios são, inescapavelmente, um mote para um post. Há alguns dias, estava eu no centro da cidade do Recife, precisamente passando em frente à Igreja do Carmo, quando vi uma cena muito inusitada: um mendigo, desses que tem uma segunda pele de suor e poeira, cabelos compridos e despenteados, pés descalços, matulão nas costas e... uma câmera fotográfica nas mãos. O mais interessante é que ele imitava um profissional: abaixava, mirava o melhor ângulo, clicava e buscava um novo quadrante. Fiquei olhando, curiosa. Ele percebeu e começou a me fotografar... Um sorriso cúmplice, ainda que de longe. Não posso afirmar se a máquina funcionava ou não. Fiquei pensando sobre isso. Gostaria de poder sentar e conversar com uma criatura tão jocosa e que representou para mim uma espécie de crítica social, flagrada ali, aos olhos de quem passava, denunciando as contradições que o capitalismo e a modernidade criam a cada dia. Se ele é lúcido, estava se divertindo com a sua própria condição de mendicante, de flagelado, de marginal... Se ele é doido, devia estar se sentindo como um grande artista, um trabalhador que logo mais iria estar no laboratório, revelando a produção de um dia. Mesmo se a câmera funcionar, estas fotos não existem, não serão reveladas, não serão vistas, não serão mostradas... São tão invisíveis como, várias vezes, aquele homem pareceu aos transeuntes... Realidade cruelmente irônica...
Certos episódios são, inescapavelmente, um mote para um post. Há alguns dias, estava eu no centro da cidade do Recife, precisamente passando em frente à Igreja do Carmo, quando vi uma cena muito inusitada: um mendigo, desses que tem uma segunda pele de suor e poeira, cabelos compridos e despenteados, pés descalços, matulão nas costas e... uma câmera fotográfica nas mãos. O mais interessante é que ele imitava um profissional: abaixava, mirava o melhor ângulo, clicava e buscava um novo quadrante. Fiquei olhando, curiosa. Ele percebeu e começou a me fotografar... Um sorriso cúmplice, ainda que de longe. Não posso afirmar se a máquina funcionava ou não. Fiquei pensando sobre isso. Gostaria de poder sentar e conversar com uma criatura tão jocosa e que representou para mim uma espécie de crítica social, flagrada ali, aos olhos de quem passava, denunciando as contradições que o capitalismo e a modernidade criam a cada dia. Se ele é lúcido, estava se divertindo com a sua própria condição de mendicante, de flagelado, de marginal... Se ele é doido, devia estar se sentindo como um grande artista, um trabalhador que logo mais iria estar no laboratório, revelando a produção de um dia. Mesmo se a câmera funcionar, estas fotos não existem, não serão reveladas, não serão vistas, não serão mostradas... São tão invisíveis como, várias vezes, aquele homem pareceu aos transeuntes... Realidade cruelmente irônica...