Uma viagem despretensiosa pela minha intimidade. Registros esporádicos de quando a vontade de escrever me arrebata. Espaço para compartilhar o meu olhar com os que visitam este lugar.
segunda-feira, setembro 26, 2011
Imprescindível...
sexta-feira, setembro 23, 2011
Jogos Frutais (João Cabral de Melo Neto)
De fruta é tua textura
e assim concreta;
textura densa que a luz
não atravessa.
Sem transparência:
não de água clara, porém
de mel, intensa.
Intensa é tua textura
porém não cega;
sim de coisa que tem luz
própria, interna.
E tens idêntica
carnação de mel de cana
e luz morena.
Luminosos cristais
possuis internos
iguais aos do ar que o verão
usa em setembro.
E há em tua pele
o sol das frutas que o verão
traz no Nordeste.
É de fruta dó Nordeste
tua epiderme:
mesma carnação dourada.
solar e alegre.
Frutas crescidas
no Recife relavado
de suas brisas.
Das frutas do Recife.
de sua família.
tens a madeira tirante.
muito mais rica.
E o mesmo duro
motor animal que pulsa
igual que um pulso.
De fruta pernambucana
tenso animal,
frutas quase animais
e carne carnal.
Também aquelas
de mais certa medida,
melhor receita.
o teu encanto está
em tua medida,
de fruta pernambucana,
sempre concisa.
E teu segredo
em que por mais justo tens
corpo mais tenso.
Tens de uma fruta aquele
tamanho justo;
não de todas, de fruta
de Pernambuco.
Mangas,mangabas
do Recife que sabe
mais desenhá-las.
És um fruto medido.
bem desenhado;
diverso em tudo da jaca,
do jenipapo.
Não és aquosa
nem fruta que se derrama
vaga e sem forma.
Estás desenhada a lápis
de ponta fina.
tal como a cana-de-açúcar
que é pura linha.
E emerge exata .
da múltipla confusão
da própria palha.
És tão elegante quanto
um pé de cana,
despindo a perna nua
de dentre a palha.
E tens a perna
do mesmo metal sadio
da cana esbelta.
o mesmo metal da cana
tersa e brunida
possuis, e também do oiti,
que é pura fibra.
Porém profunda
tanta fibra desfaz-se
mucosa e úmida.
Da pitomba possuis.
a qualidade
mucosa, quando secreta,
de tua carne.
Também do ingá,
de musgo fresco ao dente
e ao polegar.
Não és uma fruta fruta
só para o dente,
nem és uma fruta flor,
olor somente.
Fruta completa:
para todos os sentidos,
para cama e mesa.
És uma fruta múltipla,
mas simples, lógica;
nada tens de metafísica
ou metafórica.
Não és O Fruto
e nem para A Semente
te vejo muito.
Não te vejo em semente,
futura e grávida;
tampouco em vitamina,
em castas drágeas.
Em ti apenas
vejo o que se saboreia,
não o que alimenta.
Fruta que se saboreia,
não que alimenta:
assim descrevo melhor
a tua urgência.
Urgência aquela
de fruta que nos convida
a fundir-nos nela.
Tens a aparência fácil,
convidativa,
de fruta de muito açúcar,
que dá formiga.
E tens o apelo
da sapota e do sapoti
que dão morcego.
De fruta é a atração
que tens, a mesma;
que tens de fruta, atração
reta e indefesa.
Sempre tão forte
na carne e espádua despida
da fruta jovem.
És fruta de carne jovem
e de alma alacre,
diversa do oiti-coró
porque picante.
E, tamarindo,
deixas em quem te conhece
dentes mais finos.
És fruta de carne ácida,
de carne e de alma;
diversa da do mamão,
triste, estagnada.
É do nervoso
cajá que tens o sabor
e o nervo-exposto.
És fruta de carne acesa,
sempre em agraz,
como araçás, guabirabas,
maracujás.
Também mangaba..
deixas em quem te conhece
visgo, borracha.
Não és fruta que o tempo
ou copo de água
lava de nossa boca
como se nada.
Jamais pitanga,
que lava a Iínguae a sede
de todo estanca.
Ácida e verde, porém
já anuncias
o açúcar maduro que
terás um dia.
E vem teu charme
do leve sabor de podre
na jovem carne.
Aumentas a sede como
fruta madura
que começa a corromper-se
no seu açúcar.
Ácida e verde:
contudo, a quem te conhece
só dás mais sede.
Ao gosto limpo do caju,
de praia e sol,
juntas o da manga mórbida,
sombra e langor.
Sabes a ambas
em teus contrastes de fruta
pernambucana.
Sem dúvida, és mesmo fruta
pernambucana:
a graviola, a mangaba
e certas mangas.
De tanto açúcar
que ainda verdes parecem
já estar corruptas.
És assim fruta verde
e nem tão verde,
e é assim que te vejo
de há muito e sempre.
E bem se entende
que uns te digam podre e outros
te digam verde.
Preta, Preta, pretinha...
segunda-feira, setembro 19, 2011
Meninos
Engraçado é que tem um assunto do qual eu nunca falei aqui. É um tema controvertido: que envolveu muita dor, acompanhada de muita emoção. Falo do episódio de parir. Quando eu soube que estava grávida, além de ficar feliz, depois de quase um ano de tentativas, eu pensei: “Ai, como ele vai sair daqui!?” Eu sabia como, mas a situação dá um medo... Eu sempre quis ter filho por parto natural. Imaginava que seria como a minha mãe, que já chegava ao hospital botando a cria pra fora. Engano: o processo foi induzido, por causa de uma diabetes gestacional, e passei quase quinze (!) horas em trabalho de parto. Pensei que iria morrer de tanta dor e já tava entregando a alma pra quem quisesse (caso Deus estivesse muito ocupado...). Sem exageros, eu pensei que meu filho iria ficar sem mãe. Não dá pra descrever a dor, é inútil tentar, por isso nem vou me ater a essa parte. A questão é: tem dores que a gente escolhe. Horas de dor representam pouco diante da maravilhosa sensação de estar com uma vidinha crescendo na barriga, de sentir o bebê mexendo, de vê-lo pela ultrassonografia, de imaginar a carinha dele e finalmente estar com ele nos braços. Primeiro aquela criaturinha toda cinzenta, parecendo que tinha sido mergulhado no cimento fresco (perdão pela aparente falta de sensibilidade), chorando, entrando em contato com o mundo exterior pela primeira vez. Depois aquele bebê rosado, tranqüilo, bochechudo no seu colo. Chorei deveras. Emoção indescritível. Resumo da ópera: algumas dores valem a pena porque os amores significam muito.
segunda-feira, setembro 05, 2011
Terra interna
Início de noite: há pouco estava vendo um programa sobre realismo mágico-Colômbia-Gabriel Garcia Marquez. Sobre como os latino-americanos, afrontados em sua dignidade pela convivência com regimes ditatoriais, refugiaram-se no mundo que mistura real e imaginário. Uma esquizofrenia disfarçada, em que a “vítima” maneja os ingredientes (palpáveis ou não) com maestria e lucidez. Essa terra é um elogio a quem a ela pertence e todos nós nos reconhecemos nela e como parte dela... Soy loca por ti, América! Fechei os olhos, corri pela rua e voei sobre outras paragens (como o menino do filme BAARIA, a Porta do Vento): Santiago, Cidade do México, Buenos Aires e a Cartagena de Gabo, no meio das botas gigantes que decoram uma praça...
Fim de tarde: como nada é por acaso, estava lendo Borges e transmutei sua intensa inspiração portenha... As palavras sobre as ruas de Buenos Aires podem traduzir o que sinto pelo Recife, de ruas que “já são minhas entranhas. Não as ávidas ruas, incômodas de turba e de agitação, mas as ruas entediadas do bairro, quase invisíveis de tão habituais, enternecidas de penumbra e de ocaso e aquelas mais longínquas privadas de árvores piedosas onde austeras casinhas apenas se aventuram, abrumadas por imortais distâncias, a perder-se na profunda visão do céu e da planura.” Por outro lado, a dor da distância, da sensação fronteiriça de não pertencer mais ao lá e não pertencer ainda ao aqui, incomoda... Depois de borgesear, as palavras vieram por si e escrevi no caderno, para não esquecer, e agora transcrevo: A minha tristeza pariu um pranto leitoso, sanguinolento, que nem a morte consegue estancar. Minha alma é um vaso de pedras e de rosas cadavéricas. Nada sei de mim exceto que sou um mosaico de dores, sem cor e sem sanidade. O passado não me acolhe, o futuro não me toca e o presente não me reconhece...
Gosto das reticências. Não por titubearem. Não as vejo assim. Aludem ao inacabado, ao surpreendente, às muitas possibilidades que as sucedem... Depois das reticências, que venha a alegria de viver, de fazer a mim mesma, com as tintas que eu escolherei, em novo tempo, em novas ruas.
Dias antes, entrevista do Dr. Dráuzio Varela no Roda-Viva: sobre sua experiência de estar à beira da morte e pelos depoimentos de alguns de seus pacientes, o médico conclui que a morte lenta prepara o indivíduo para o fim. Segundo ele, há um desligamento gradativo do moribundo em relação aos apegos, inclusive aos laços familiares. Não é um desamor. É uma conformação diante da iminência da partida. A morte anestesia o doente e as dores sobram para quem fica, até que o tempo aja para aplacá-las. Sábio Doutor Tempo, restaura-nos!
quarta-feira, dezembro 22, 2010
Virando a página...

sexta-feira, setembro 17, 2010
Quando despedaço...
sábado, setembro 04, 2010

"Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Ter me rebelado, ter me debatido
Ter me machucado, ter sobrevivido
Ter virado a mesa, ter me conhecido
Ter virado o barco, ter me socorrido."
Não posso recomeçar, a partir do zero. Posso começar de novo, como já me disseram duas pessoas queridas. Trago as dores, as lições, as vivências que tive, os sentimentos que tenho e um esforço de guardar, somente no coração, a pessoa com quem gostaria de compartilhar todos os meus dias. Como a vida deve ser um exercício de desapego, a gente vai se despedindo todo dia: de um projeto, de um desejo, de um futuro, de um passado... Preciso aceitar isso... sempre!
domingo, agosto 29, 2010
"Você entrou no trem/E eu na estação/Vendo um céu fugir/Também não dava mais/Para tentar/Lhe convencer/A não partir..."
Trago no olhos a tristeza de ver um mundo opaco. Sem cor. Em sépia. Sem poesia, sem beleza. Miro as alegrias que não voltam, os dias findos. Não vejo horizontes, não quero vê-los. O luto marejou meus olhos, secou minha boca e minha alegria. Não escuto mais, os sons parecem distantes como se eu estivesse envolta em pedra. Não falo, apenas grito por dentro. O som inaudível do desespero.
sexta-feira, agosto 27, 2010
Estado de espírito

“Que sempre fui triste. Que vejo essa tristeza nas minhas fotografias da infância. Que hoje essa tristeza, sentindo-a como a mesma que sempre senti, quase pode ter o meu nome, tanto ela se parece comigo. Digo que hoje essa tristeza é um bem-estar, o bem-estar de ter afinal caído na infelicidade que minha mãe anuncia há tanto tempo, quando ela uiva no deserto de sua vida.” Marguerite Duras
quinta-feira, agosto 26, 2010
Desejos
sábado, agosto 14, 2010
A dama (o filho da dama) e o vagabundo

sexta-feira, agosto 13, 2010
Silêncio

Ele chegou subitamente. Toc toc na janela. Ela entreabriu e reconheceu a fisionomia. Fechou-a levemente. Escorou-se na parede e pensou se deveria ou não abrir. Decidiu sair correndo pelos fundos da casa. Ele esperou... Quando ela voltou, ele ainda estava lá... Ela resolveu abrir a janela. Conversaram na sacada, sentados, como crianças, observando o movimento da rua... Fizeram juras de amor eterno, tocaram-se em mãos entrelaçadas que, a muito custo, desvencilhavam-se às vezes... Ela sussurava, ele fazia mímicas e truques de mágica...
No outro dia, ele demorou a chegar, mas veio... Ela abriu a porta, convidando-o a entrar. Ele titubeou... Tocaram as mãos um do outro, beijaram-se, mergulharam em si mesmos, como se aquela fosse a última noite da existência...
Abruptamente, ele foi embora. Voltou muito tempo depois, transtornado. Ela abriu a porta, cheia de saudade. Ele não quis entrar. Ela insistiu. Começou a chover. A chuva aumentou. Ele não entrou... Preferiu ir embora de vez, junto com a chuva. Para ele, a chuva era previsível, como ela nunca seria... Ela continuou na janela, esperando que ele voltasse, lembrando daquilo que ele dizia, do seu semblante, do seu sorriso, de suas mãos e de suas mágicas. Um dia, ela fechou a janela, depois a porta e abandonou a casa. Procura ainda hoje por ele, seja onde chove ou onde faz sol...
sábado, agosto 07, 2010
Claro-escuro

Posso dizer que, na época, não entendi muito bem o enredo e hoje, as lembranças são distantes e fragmentadas. O que me chamou atenção, deixando-me angustiada foi o desconforto daquela solidão. Em muitos momentos da minha vida, senti solidão e isso sempre me incomodou. E assustou também.
Em poucos momentos, experimentei uma solidão voluntária e prazerosa. Algumas vezes, fiquei só pra poder sofrer, outras pra lembrar, outras pra chorar, outras pra observar o mundo, outras pra estudar (algo que gosto de fazer sozinha), outras pra arrumar a casa, ouvir música. Mas, particulamente desagradável pra mim era comer sem companhia, seja em casa ou na rua, ir ao cinema, ao shopping... Hoje faço isso com menor reserva...
Tenho tentado "curtir" a solidão e enxergá-la de outra forma. Como algo necessário, às vezes inexorável, passageiro ou aparente. Quero aprender a conversar comigo mesma, dar mergulhos introspectivos e resignar-me ao que não pode ser mudado. Empreitada pretensiosa? Talvez...
sábado, julho 31, 2010
A mesa e a estrada

Fiz um rallyzinho dos sertões também: fomos eu e outro professor pra fazer inscrições e entrevistas pro processo seletivo do IFSertão, em distritos de Petrolina e cidades circunvizinhas. Enfrentamos quilômetros de estrada de barro, no meio da caatinga, levantando muita poeira,num cenário de descobertas pra mim. A diversidade do bioma é impressionante! Tive ainda o prazer de ver uma revoada de jandaias, casinhas de taipa, perdidas no meio do nada, bodes, vacas e outros bichos, na tranquilidade de seu habitat. Natureza a perder de vista!
Nessas andanças, conheci a Barragem de Sobradinho e, a despeito da interferência humana, é um assombro de beleza. Conheci também um pequeno povoado, chamado pitorescamente de "Atalho", resumido a uma rua com uma dúzia de casas de cada lado, uma escola, uma bodega, uma borracharia e muita gentileza. Uma das moradoras, sabendo da nossa chegada, ofereceu um almoço dos melhores que eu já comi: feijão de arranca, arroz, saladinha, macarrão e uma galinha caipira (de babar de tão boa que era). Só de lembrar da comida, dá vontade de voltar lá... Além disso, aquela casinha, cuja porta abriu-se com tamanha boa-vontade e aquele tratamento caloroso, a gente raramente encontra...
Queimadinha de radioatividade!

Eu já bebi muito ao som de Ângela, gostava (e gosto) das músicas de "fossa". Letras que falam de dor, de frustração amorosa, de desencanto mas que não são um convite pra se matar (por isso não gosto das músicas de Núbia Lafayette), mas pra levantar a cabeça, depois de roer o cotovelo. São músicas de superação: "tô fodida, bebendo, mas eu me recupero, viu?" (da dor e da ressaca). Hoje bebo quase nada porque minha tolerância à bebida despencou. Outro dia, pedi uma caipifruta e, no segundo gole, minha cabeça tava rodando. Cerveja? Se eu passo de três latinhas, tenho uma dor de cabeça da "disgrama" no outro dia... Pois é, bebedeiras são passado. Só nos resta um brinde... com água: "- Viva Ângela Ro Rô!".
sábado, maio 15, 2010
O chamado

sexta-feira, abril 02, 2010
A LENTE DO HUMOR

Certos episódios são, inescapavelmente, um mote para um post. Há alguns dias, estava eu no centro da cidade do Recife, precisamente passando em frente à Igreja do Carmo, quando vi uma cena muito inusitada: um mendigo, desses que tem uma segunda pele de suor e poeira, cabelos compridos e despenteados, pés descalços, matulão nas costas e... uma câmera fotográfica nas mãos. O mais interessante é que ele imitava um profissional: abaixava, mirava o melhor ângulo, clicava e buscava um novo quadrante. Fiquei olhando, curiosa. Ele percebeu e começou a me fotografar... Um sorriso cúmplice, ainda que de longe. Não posso afirmar se a máquina funcionava ou não. Fiquei pensando sobre isso. Gostaria de poder sentar e conversar com uma criatura tão jocosa e que representou para mim uma espécie de crítica social, flagrada ali, aos olhos de quem passava, denunciando as contradições que o capitalismo e a modernidade criam a cada dia. Se ele é lúcido, estava se divertindo com a sua própria condição de mendicante, de flagelado, de marginal... Se ele é doido, devia estar se sentindo como um grande artista, um trabalhador que logo mais iria estar no laboratório, revelando a produção de um dia. Mesmo se a câmera funcionar, estas fotos não existem, não serão reveladas, não serão vistas, não serão mostradas... São tão invisíveis como, várias vezes, aquele homem pareceu aos transeuntes... Realidade cruelmente irônica...
quarta-feira, setembro 30, 2009
Auroras

sexta-feira, setembro 25, 2009
Abandono

Abandonar a carne, tradução do termo latino que deu origem à palavra "carnaval". Depois o significado seria invertido: abandonar-se à carne. Ou comer vorazmente a carne? Mergulhar na carne? Afundar-se na carne? Estar faminto como o carnaval que a todos devora? Devoramos carne, dia após dia: a carne exposta na violência, na sexualidade desenfreada (esvaziada, reduzida, simplificada, empobrecida, dessignificada)...
Abandonamos nós mesmos, abandonamos o outro. Colha o abandono: adote uma flor, um arco-íris, uma criança...

