domingo, agosto 29, 2010

"Você entrou no trem/E eu na estação/Vendo um céu fugir/Também não dava mais/Para tentar/Lhe convencer/A não partir..."

Trago no olhos a tristeza de ver um mundo opaco. Sem cor. Em sépia. Sem poesia, sem beleza. Miro as alegrias que não voltam, os dias findos. Não vejo horizontes, não quero vê-los. O luto marejou meus olhos, secou minha boca e minha alegria. Não escuto mais, os sons parecem distantes como se eu estivesse envolta em pedra. Não falo, apenas grito por dentro. O som inaudível do desespero.

sexta-feira, agosto 27, 2010

Estado de espírito


“Que sempre fui triste. Que vejo essa tristeza nas minhas fotografias da infância. Que hoje essa tristeza, sentindo-a como a mesma que sempre senti, quase pode ter o meu nome, tanto ela se parece comigo. Digo que hoje essa tristeza é um bem-estar, o bem-estar de ter afinal caído na infelicidade que minha mãe anuncia há tanto tempo, quando ela uiva no deserto de sua vida.” Marguerite Duras

quinta-feira, agosto 26, 2010

Desejos


Ela queria flores... de plástico (só pra não matar as plantinhas). Queria que, em arroubos de paixão, ele viesse à noite, sem avisar, pra deitarem juntos, na grama, vendo a lua e oferecendo estrelas um ao outro. Eles iriam fechar os olhos e, de corpos unidos, adormecerem, sentindo um lufar de felicidade. Iriam semear futuros, caminhando sempre de mãos dadas, trocando olhares cúmplices...

sábado, agosto 14, 2010

A dama (o filho da dama) e o vagabundo


Ontem: sexta-feira, 13, do mês do cachorro louco. Dia malogrado para os supersticiosos. Dúvidas à parte, tive sorte ontem. Eis o acontecido: fui buscar meu filho na escola, depois, passei na padaria, como de costume e seguimos pra casa, conversando. Ao entrar numa rua, avistei um cachorro na calçada de uma casa. Detalhe: este cachorro sempre está lá, dormindo no pé do portão. Sempre! Mas, desta vez, ele estava acordado. Quando passamos, o portão se abriu e dali surgiu outro cachorro. Eles vieram em nossa direção. João se assustou e eu o coloquei nos braços. Falei calmamente no ouvido dele que eu estava ali e não deixaria que nada de mal acontecesse com ele. Parei e fiquei quieta. Ele ficou calmo. O dono dos cachorros chamou os seus bichos. Voltei pensando na minha reação: não tive medo e mantive a calma. Uma calma estranhíssima. Tenho certeza que eu não deixaria que aqueles cachorros mordessem João. Eles poderiam me esquartejar mas eu encontraria um lugar pra colocar meu filho a salvo. Achei engraçado isso. Nosso instinto de sobrevivência volta-se pra salvaguardar outra pessoa. Não tive medo de morrer espedaçada (com todo o exagero que essa idéia possa ter). Tive medo de não conseguir proteger o meu filho. Felizmente, foi só um susto. Ficamos inteiros e voltamos tranquilos. Outro detalhe: quando eu era criança, fui mordida por um cachorro, depois de tentar colocar umns óculos nele (eu tinha certeza de que, quem era cego, podia milagrosamente enxergar ao usar esse objeto). Tomei vacina antirrábica e sempre quis manter esses bichos à distância. Qualquer cachorrinho me assustava. Esse medo não existe mais.

sexta-feira, agosto 13, 2010

Silêncio


"Estavam naquela fase em que um dá de presente as vontades do outro. A melhor fase, diga-se. Depois vem o tempo em que um ignora as vontades do outro e, no fim, o tempo em que passa a contrariá-las." O Amor e Outros Objetos Pontiagudos (Marçal Aquino)

Ele chegou subitamente. Toc toc na janela. Ela entreabriu e reconheceu a fisionomia. Fechou-a levemente. Escorou-se na parede e pensou se deveria ou não abrir. Decidiu sair correndo pelos fundos da casa. Ele esperou... Quando ela voltou, ele ainda estava lá... Ela resolveu abrir a janela. Conversaram na sacada, sentados, como crianças, observando o movimento da rua... Fizeram juras de amor eterno, tocaram-se em mãos entrelaçadas que, a muito custo, desvencilhavam-se às vezes... Ela sussurava, ele fazia mímicas e truques de mágica...
No outro dia, ele demorou a chegar, mas veio... Ela abriu a porta, convidando-o a entrar. Ele titubeou... Tocaram as mãos um do outro, beijaram-se, mergulharam em si mesmos, como se aquela fosse a última noite da existência...
Abruptamente, ele foi embora. Voltou muito tempo depois, transtornado. Ela abriu a porta, cheia de saudade. Ele não quis entrar. Ela insistiu. Começou a chover. A chuva aumentou. Ele não entrou... Preferiu ir embora de vez, junto com a chuva. Para ele, a chuva era previsível, como ela nunca seria... Ela continuou na janela, esperando que ele voltasse, lembrando daquilo que ele dizia, do seu semblante, do seu sorriso, de suas mãos e de suas mágicas. Um dia, ela fechou a janela, depois a porta e abandonou a casa. Procura ainda hoje por ele, seja onde chove ou onde faz sol...

sábado, agosto 07, 2010

Claro-escuro


Da infância, tenho uma lembrança recorrente: um programa de tv, o Teletema (acho...), cujo tema era, basicamente, as crises e internamentos de uma esquizofrênica. A solidão dentro da clínica psiquiátrica, as limitações da doença, a fragilidade humana, tudo estava ali. ..
Posso dizer que, na época, não entendi muito bem o enredo e hoje, as lembranças são distantes e fragmentadas. O que me chamou atenção, deixando-me angustiada foi o desconforto daquela solidão. Em muitos momentos da minha vida, senti solidão e isso sempre me incomodou. E assustou também.
Em poucos momentos, experimentei uma solidão voluntária e prazerosa. Algumas vezes, fiquei só pra poder sofrer, outras pra lembrar, outras pra chorar, outras pra observar o mundo, outras pra estudar (algo que gosto de fazer sozinha), outras pra arrumar a casa, ouvir música. Mas, particulamente desagradável pra mim era comer sem companhia, seja em casa ou na rua, ir ao cinema, ao shopping... Hoje faço isso com menor reserva...
Tenho tentado "curtir" a solidão e enxergá-la de outra forma. Como algo necessário, às vezes inexorável, passageiro ou aparente. Quero aprender a conversar comigo mesma, dar mergulhos introspectivos e resignar-me ao que não pode ser mudado. Empreitada pretensiosa? Talvez...
Como dizem, nascemos sós e morremos sós.

sábado, julho 31, 2010

A mesa e a estrada


Desde que cheguei em Petrolina, tenho feito diariamente uma viagem sentimental pelo Sertão. Tenho ascendência sertaneja mas esse universo sempre foi distante, só de ouvir falar nos "causos" que os meus pais contam... Primeiro, a comida (divina!)... E ter Petrolina, de um lado, e Juazeiro, do outro, é um deleite só! Aqui descobri uma tal de pititinga, que é uma espécie de piaba, servida frita e levemente empanada, acompanhada de uma pimentinha baiana, caseira e fresquinha... Um petisco de comer rezando, como se diz. Cari com molho de manga e castanha: manjar dos deuses! Aliás, dizem que o cari é um peixe horroroso de se ver mas muito gostoso, como já comprovei (embora ainda não tenha visto o dito cujo). Tem até uma receita de cari com mandacaru que, infelizmente, ainda não provei... Resumo da ópera: engordei uns quatro quilos desde que vim morar na terra das carrancas.
Fiz um rallyzinho dos sertões também: fomos eu e outro professor pra fazer inscrições e entrevistas pro processo seletivo do IFSertão, em distritos de Petrolina e cidades circunvizinhas. Enfrentamos quilômetros de estrada de barro, no meio da caatinga, levantando muita poeira,num cenário de descobertas pra mim. A diversidade do bioma é impressionante! Tive ainda o prazer de ver uma revoada de jandaias, casinhas de taipa, perdidas no meio do nada, bodes, vacas e outros bichos, na tranquilidade de seu habitat. Natureza a perder de vista!
Nessas andanças, conheci a Barragem de Sobradinho e, a despeito da interferência humana, é um assombro de beleza. Conheci também um pequeno povoado, chamado pitorescamente de "Atalho", resumido a uma rua com uma dúzia de casas de cada lado, uma escola, uma bodega, uma borracharia e muita gentileza. Uma das moradoras, sabendo da nossa chegada, ofereceu um almoço dos melhores que eu já comi: feijão de arranca, arroz, saladinha, macarrão e uma galinha caipira (de babar de tão boa que era). Só de lembrar da comida, dá vontade de voltar lá... Além disso, aquela casinha, cuja porta abriu-se com tamanha boa-vontade e aquele tratamento caloroso, a gente raramente encontra...

Queimadinha de radioatividade!


Numa entrevista recente, em série especial de telejornal, sobre os malefícios do álcool, Ângela Ro Rô declarou que não bebe nada mais, exceto água. Mesmo nas tertúlias, só entra esta bebida. Fiquei boquiaberta! Logo ela que era o baluarte do exagero etílico, que tantas vezes deu vexame, por estar embriagada nos shows e em outras ocasiões. Nenhuma recriminação aqui, vale ressaltar. Sempre admirei muito esta figura, pela sua sinceridade, por admitir suas bebedeiras, suas preferências sexuais, e por combater a hipocrisia. Segundo ela, a abstinência é voluntária, não precisou de tratamento algum, só que ela cansou de exagerar na dose, de enfrentar ressacas homéricas (do corpo e da alma) e da amnésia que acompanhava os porres.
Eu já bebi muito ao som de Ângela, gostava (e gosto) das músicas de "fossa". Letras que falam de dor, de frustração amorosa, de desencanto mas que não são um convite pra se matar (por isso não gosto das músicas de Núbia Lafayette), mas pra levantar a cabeça, depois de roer o cotovelo. São músicas de superação: "tô fodida, bebendo, mas eu me recupero, viu?" (da dor e da ressaca). Hoje bebo quase nada porque minha tolerância à bebida despencou. Outro dia, pedi uma caipifruta e, no segundo gole, minha cabeça tava rodando. Cerveja? Se eu passo de três latinhas, tenho uma dor de cabeça da "disgrama" no outro dia... Pois é, bebedeiras são passado. Só nos resta um brinde... com água: "- Viva Ângela Ro Rô!".

sábado, maio 15, 2010

O chamado


Quando João nasceu, figurava, entre as preocupações da mãe que vos fala, o cuidado com o umbigo dele. Desde quando ainda estava na maternidade, a enfermeira recomendou que passasse álcool (acho que de 90 graus) até que o dito cujo caísse. As muitas novidades, que descobri somente quando estava grávida (como a barriga que coça muito quando está esticando ou que mulher prenhe tem muitas cãibras, principalmente quando acorda), continuaram depois do parto... E, dentre elas, a atenção especial ao umbigo do recém-nascido. Atenção não meramente relacionada à higiene mas a questões bem mais abstratas... Bem, a questão-chave era: o que fazer com o cordão umbilical depois que ele caísse? Na verdade, eu nem tinha me feito esta pergunta mas a minha vizinha, que foi uma das primeiras pessoas a se encantar por João, não deixou de fazê-la e, antes que eu respondesse, ela já foi dizendo que eu JA-MA-IS deveria jogá-lo no lixo porque algum rato iria comê-lo e isso traria maus agouros pra vida do meu filhote. Como eu só não duvido da fé, levei em conta seus conselhos: o cordão deveria ser colocado numa porteira de uma fazenda ou em água corrente, de preferência, num rio. A primeira opção era inviável por motiivos óbvios. Então, lá iria eu dar um jeito de jogar o pedacinho umbilical no Capibaribe (não exatemente aquele dos poemas de João Cabral), por ser o mais próximo, embora não o mais limpo. Mas tudo se resolveu mais rápido do que eu pensava. Ao comentar com meu amigo Fernando, sobre o que dissera minha vizinha, ele prontificou-se a dar um ajuda. Como iria dali a alguns dias pro Sertão, a trabalho, perguntou se eu não queria que ele jogasse o cordão umbilical no rio São Francisco... Achei uma ótima idéia! E lá se foi a encomenda pro Velho Chico. Um momento histórico, com foto e tudo, pra ficar pra posteridade. O engraçado disso tudo é que, quatro anos depois, estou morando em Petrolina, cidade banhada pelo ilustre e grandioso rio. Há pouco tempo, fui com João fazer a travessia de barca entre Petrolina e Juazeiro e apresentei o rio pra ele. De São Francisco, ele virou "João Francisco", segundo meu filho insistiu em chamá-lo. Logo depois ele disparou a pergunta: "- Cadê meu umbigo?". Depois disso, fiquei pensando sobre o episódio. Dizem por aqui que, quem bebe a água do rio São Francisco sempre volta. Parece que posso afirmar outra coisa: quem joga cordão umbilical no mesmo rio, chega ao sertão, pelo chamado do rio. Só não sei se volta...

sexta-feira, abril 02, 2010

A LENTE DO HUMOR


A Ceça e Sérgio
Certos episódios são, inescapavelmente, um mote para um post. Há alguns dias, estava eu no centro da cidade do Recife, precisamente passando em frente à Igreja do Carmo, quando vi uma cena muito inusitada: um mendigo, desses que tem uma segunda pele de suor e poeira, cabelos compridos e despenteados, pés descalços, matulão nas costas e... uma câmera fotográfica nas mãos. O mais interessante é que ele imitava um profissional: abaixava, mirava o melhor ângulo, clicava e buscava um novo quadrante. Fiquei olhando, curiosa. Ele percebeu e começou a me fotografar... Um sorriso cúmplice, ainda que de longe. Não posso afirmar se a máquina funcionava ou não. Fiquei pensando sobre isso. Gostaria de poder sentar e conversar com uma criatura tão jocosa e que representou para mim uma espécie de crítica social, flagrada ali, aos olhos de quem passava, denunciando as contradições que o capitalismo e a modernidade criam a cada dia. Se ele é lúcido, estava se divertindo com a sua própria condição de mendicante, de flagelado, de marginal... Se ele é doido, devia estar se sentindo como um grande artista, um trabalhador que logo mais iria estar no laboratório, revelando a produção de um dia. Mesmo se a câmera funcionar, estas fotos não existem, não serão reveladas, não serão vistas, não serão mostradas... São tão invisíveis como, várias vezes, aquele homem pareceu aos transeuntes... Realidade cruelmente irônica...

quarta-feira, setembro 30, 2009

Auroras


Hoje, mais uma vez, revi "A aurora do homem", trecho antológico do clássico de Stanley Kubrick. Gosto tanto desta célebre passagem de "2001: Uma Odisséia no Espaço" que, se fosse cineasta, gostaria de tê-la criado. Isso não é pretensão, é só a audácia de imaginar o prazer que Kubrick sentiu, ao finalizar esta empreitada poética. O ritmo lento que remete à longuíssima duração da chamada Pré-História. O ancestral do homem à mercê da natureza, descobrindo-a muito lentamente para compreender seus sinais. A alegoria do obelisco é infinitamente precisa. Qualquer outro animal não iria reparar naquele objeto desconhecido. E isso nos torna diferentes: a perplexidade diante do novo e a ânsia de conhecê-lo. O olhar humano carrega a subjetividade, um infinito universo interior...

sexta-feira, setembro 25, 2009

Abandono


Brasil, 1914. Missionários salesianos chegam à Amazônia. Arrogam-se o direito de achar obscenos os corpos nus dos índios. Colocam roupas neles, sequestram as almas deles, apropriam-se da mente deles. Lançam sobre eles olhares que poluem, que transformam beleza em lascívia, pureza em pecado. Desde a chegada daqueles de além-mar, estamos à deriva, abandonados à nossa própria sorte. Foi catequese de um lado, escravidão de outro...
Abandonar a carne, tradução do termo latino que deu origem à palavra "carnaval". Depois o significado seria invertido: abandonar-se à carne. Ou comer vorazmente a carne? Mergulhar na carne? Afundar-se na carne? Estar faminto como o carnaval que a todos devora? Devoramos carne, dia após dia: a carne exposta na violência, na sexualidade desenfreada (esvaziada, reduzida, simplificada, empobrecida, dessignificada)...
Abandonamos nós mesmos, abandonamos o outro. Colha o abandono: adote uma flor, um arco-íris, uma criança...

sábado, maio 31, 2008

EQM


O que falar de si quando se está alheio? Em certos dias, não me reconheço. Não sei onde fui parar. Parece que pra saber quem sou, tantas vezes tive que escapar de mim... Há pouco, senti a dor de ir embora, como se estivesse prestes a deixar o mundo. São só sensações... Sentimentos que destroçam a alma. Vou fechar os olhos, sentir o cheiro das flores, respirar suave e profundamente, pra abrir um horizonte... Faça-se a luz!

sábado, abril 05, 2008

Decifra-me...


DIANTE DE TANTOS RASCUNHOS NÃO POSTADOS, RESOLVI MODIFICÁ-LOS E PUBLICÁ-LOS (APROVEITANDO MOMENTOS PASSADOS DE INSPIRAÇÃO):

Ela, angustiada, olhava o mar. A imensidão azul terminava, invariavelmente, no enigma do horizonte. Pensou sobre seu futuro. Sobre incertezas. Tudo o que sabia naquele momento era que, por mais que tentasse (e tentou!), não lembrava do rosto dele. A fisionomia daquele com quem tinha partilhado tanta intimidade fugiu-lhe. Até quando? Talvez nunca lembrasse. Seria melhor assim? Não tinha esquecido nada do que aconteceu. Mas tudo vinha à mente sem esse rosto. Desfez-se de todas as fotografias dele. Sua memória acompanhou seu ato. Bloqueou todas as recordações daquele rosto para o qual tantas e tantas vezes olhou...

Encontrara Heitor, pela primeira vez, cinco anos antes. Circulava pelos corredores de uma exposição fotográfica com uma amiga da faculdade. Resolveu ir ao banheiro. Quando fechou a porta do reservado, percebeu um barulho estranho. Tentou sair. Em vão. A fechadura tinha quebrado. Foi tomada pelo desespero. Suou frio ao perceber que não tinha como sair dali: as paredes laterais iam quase até o teto e a porta de vidro não suportaria seu peso.

- Malditos arquitetos! - praguejou.

Lembrou que tinha deixado a bolsa com Suzana e não poderia usar o celular. Desesperou-se ainda mais porque o espaço cultural iria fechar dali a pouco tempo. Respirou fundo e gritou. Com todas as suas forças. Nada! Continuou gritando, por um tempo que pareceu eterno. Ouviu uma voz, bem longe, perguntar: - Posso entrar? Ela respondeu sim, pedindo ajuda. Um homem viera para ajudá-la. Ela nem pensou no inconveniente desta situação. Apenas queria sair urgentemente dali...


domingo, março 09, 2008

Insônia

Suportar o mundo, perseguindo a alegria da infância. Colher cinzas, alimentando flores. Vestir mortalhas, enquanto gera. Penar por culpa, parindo novos calafrios. Alma renascida a cada golpe. Peito que regela para voltar a abrasar, inteiro, pulsante e transbordante. Os extremos do caminho reforçam: depois da derrota, recompõem-se as energias. Pela coragem, move-se o destino.

sábado, março 01, 2008

Cheiro de orvalho...

Emoções? Temos muitas pela vida. Tantas que sequer lembramos de todas, inclusive, por uma questão prática: a memória é seletiva, não comporta tudo o que vivemos! Imagine fazer um retrospecto da vida, lembrando de absolutamente tudo. Seria infindável... Dificultaria até a organização do raciocínio. Lembramos do que nos marcou muito. Seja algum de bom, ou de ruim. Ontem, não sei por que motivo, ocorreu-me uma lembrança que há tempos eu não tinha. Uma reminiscência que talvez tenha algo a ver com uma mensagem em que Ebinho, velho amigo da infância, aludia a uma foto do álbum (da minha página do orkut), relembrando os idos dos anos 70, quando, ainda em muito tenra idade, viramos vizinhos e amigos-irmãos, em Garanhuns. Esses momentos trazem muita emoção: vivenciamos, de longe, um tempo que não volta mais e pensamos em quanto tempo ainda nos resta... Mas, voltando à lembrança que me veio à memória ontem, revivi aquela sensação de quando voltei a Garanhuns, pela primeira vez, depois que tinha ido morar em Recife. Foi uma sensação única e uma emoção da qual não esquecerei. Aconteceu de supetão, no final dos anos 80, quando uma tia, passou na minha casa e fez o convite pra irmos fazer um passeio. O destino final foi a minha cidade natal, onde passei os bons e maus momentos da minha infância. A volta trouxe lágrimas aos olhos, incontrolavelmente. Elas rolavam por si. Algo incomum pra mim, que sempre evitei chorar em público. Tinha vergonha... Era quase um tabu. Sinal de derrota, ou coisa assim, que o meu orgulho (ainda infantil) aprendeu a controlar... Isso era tão forte que, certa vez, houve um acidente na vila em que eu morava que resultou na morte de um menino. Ele era muito reservado, quase não brincava com a gente e vivia sempre quieto, pelos cantos. Quando ele estava, timidamente, começando a se enturmar, veio o dia fatídico: seu irmão mais velho jogou thinner na churrasqueira e o fogo o atingiu. Lembro de ter ido ao velório com minha mãe (no interior, os velórios aconteciam em casa mesmo). A parte mais comovente foi quando retiraram uma toalhinha que cobria o seu rosto. Era pra mim o primeiro assombro da morte. Chorei durante a semana inteira que se seguiu. Sempre atrás do sofá de casa, pra que ninguém testemunhasse minhas lágrimas. Essas lágrimas, tão contidas, transbordaram no meu retorno a Garanhuns. Saíram da alma. Compuseram uma emoção profunda, visceral, primordial... Ali era o lugar que fazia parte de mim, pra onde eu não voltaria jamais, a não ser nas minhas memórias: naqueles quintais onde reinávamos absolutos, terreno das brincadeiras e da imaginação, refúgio que os adultos não compreendiam e não poderiam invadir; da sensação de liberdade, ao correr pelo meio da rua, no parque, na praça, no contato com a areia (primeira transgressão); no cheiro de orvalho, presente em quase todas as manhãs... Ah, o cheiro de orvalho... Este é particularmente marcante. Quando comecei a estudar na Federal, sempre passava, de ônibus, na frente do prédio da Sudene, onde uma fonte irrigava o mato que, por isso, exalava um cheiro parecido com aquele do orvalho. Automaticamente, eu fechava os olhos e, simbolicamente, retornava a Garanhuns, porque a memória é ativada pelos sentidos e, como dizia Calvino, nas "Cidades Invisíveis", na fala do veneziano Marco Polo: "cada vez que faço a descrição de uma cidade, digo alguma coisa sobre Veneza", o que me permite dizer que, na minha contemplação sobre Recife, eu procurava a minha cidade, nas entrelinhas. Pra terminar, um pouco mais de Calvino: "- As imagens da memória, uma vez fixadas pelas palavras, apagam-se - constata Polo. - Pode ser, Veneza, que eu tenha medo de perdê-la de uma vez se a descrevo. Ou pode ser, falando de outras cidades, que eu já a tenha perdido pouco a pouco". O título inicial deste post seria "Lágrimas". Algumas vieram enquanto escrevia. Mudei de idéia. Preferi o orvalho: hoje moro por trás da Sudene. Retorno simbólico à fonte... ao útero.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Sobre praias e ogros...

No fim-de-semana pós-carnavalesco, eu e meu consorte resolvemos curar a ressaca da folia (mais minha do que dele) na praia. Acordamos cedo, providenciamos umas cervejas, uns petiscos, os kits e brinquedinhos de João Victor (no plural, porque a presença de criança amplia consideravelmente a bagagem). Tudo pronto, colocamos o "pé" na estrada e fomos pro litoral sul, meio outsiders, pra fugir da fúria de Boa Viagem... Decidimos ir pra Enseada dos Corais, cuja tranqüilidade faz jus ao que uma praia deve inspirar... Porém, como chegamos mais tarde do que pretendíamos, fomos pra Xaréu. Só iríamos pra Enseada quando o sol baixasse porque, mesmo tendo levado cadeiras e guarda-sol, o pequeno (e mui branco) João não iria agüentar o mormaço. Final de tarde chegou, lá fomos pra o nosso destino previsto. De repente, a praia quase deserta, aquele marzão na frente, aquele tapete de areia pra correr com João. Parecia propaganda de refrigerante (aliás, de refrigerante não porque, apesar de quase sempre serem ambientadas em belas praias, sempre tem meio-mundo de gente, portanto devo dizer: propaganda de plano-de-saúde-família). Munidos de pás, baldes e outros apetrechos infantis, fomos brincar na areia. Como as crianças têm a incrível capacidade de transformar o inusitado em algo absolutamente trivial, a certa altura, sinto aquele cheirinho-denúncia, aquele alerta de que "havia algo de podre no reino da Dinamarca" ou, mais precisamente, naquele bumbum branquelo do meu filhote... Problema número um: ele só estava de sunga (obviamente porque não dava pra deixá-lo de fralda descartável na praia); Problema número 2: eu não havia lembrado de colocar lenços umedecidos na volumosa bagagem (AAAAAAAAAAhhhhhhh!); Problema número 3: onde colocar aquele "lixo"? No lixeirinho do carro? De jeito nenhum! Bem, perdoem-me os ambientalistas (Sheilinha que não me ouça...), mas tive que enterrar os dejetos mal-cheirosos (a redundância vale quando se trata de cocô de criança!) e ainda ir lavar a sunga e a bunda de João no mar. Que cena! O pior foi ter que fazer as duas coisas, quase ao mesmo tempo, diante de um mar bravio. A sunga escapou da minha mão e lá vou eu, correndo, com João no braço, pra recuperá-la. Iemanjá deve ter rido um bocado, se não tiver ficado muito irada com a sujeira que coloquei na casa dela... Certamente, não vou esquecer este dia que, apesar da merda (desculpem o trocadilho), foi muito divertido! Desde a chegada à praia, demos boas gargalhadas com João. Quando estávamos indo pra Xaréu, por Itapoama, fiquei em dúvida se deveria pegar a estradinha da direita ou esquerda. Pedimos informação a um transeunte: - "Por favor, onde fica Pedra de Xaréu (como estava escrito em placa bem anterior àquele trecho)?" Ele indicou o caminho e seguimos. Segundos depois, João dispara: - "Pedra de Shrek! Rá-rá-rá!" Conclusão: pra ele, finalmente, descobriu-se onde morava aquele ogro cheio de graça...

domingo, fevereiro 17, 2008

Água

Quando quis ser a chave dos seus olhos
Vislumbrei deleites.
Apaguei todos os pontos de fuga.
Desenhei no horizonte.
Percorri seus signos,
à procura de pistas,
do que restara de mim.
A brasa consumiu-se.
O inverno irrompeu,
apagando os caminhos.

Um bloco a mais...

Uma maré de gente. Espumas coloridas. Brilhos que enchem os olhos. Lirismo que mareja os olhos. A embriaguez escorrendo no suor. O calor que abraça, abrasa e enche o peito com uma lufada de brisa marinha, lá no Alto da Sé, com a vista das Marins. O carnaval vai e volta, preenche a memória, recorda o sorriso, a infância e a beleza do que liberta a alma. O último regresso viaja no ar, evocando os carnavais vindouros: "Falam tanto que meu bloco está/dando adeus pra nunca mais sair/e depois que ele desfilar/do seu povo vai se despedir/no regresso de não mais voltar/suas pastoras vão pedir/ Não deixem não/que um bloco campeão/guarde no peito a dor de não cantar/um bloco a mais/é um sonho que se faz/nos pastoris da vida singular/É lindo ver, o dia amanhecer/com violões e pastorinhas mil/dizendo bem/que o Recife tem/o carnaval melhor do meu Brasil. "(Getúlio Cavalcanti)

terça-feira, fevereiro 05, 2008

Segura o caboclo!

Neste carnaval, brinquei pouco. As circunstâncias não foram favoráveis à folia de Momo. Não pra mim. Isso não significa que tenha sido muito ruim. Não foi como eu gostaria. Mas, posso dizer que as poucas horas carnavalescas tiveram seus momentos inesquecíveis. Uma delas foi encontrar uma cobra em pele de coelha nas ladeiras de Olinda. A coelha era laranja! Aliás, Eva ganharia, de longe, o prêmio originalidade na fantasia, nos dois momentos em que a encontrei neste carnaval. Na primeira vez, ela estava com uma fantasia, de inspiração chinesa, cujo nome não lembro porque, pra lembrar, era preciso não ter bebido nada, o que não era o meu caso. Inclusive, se ela bebesse muito não iria lembrar o pomposo título, atribuído por ela, ao seu look carnavelesco. Encontrar com Ana, a romana, também foi especial, apesar dos muitos desencontros entre nós nestes dias. Ana é Ana. Alegre ou triste, ela é linda, sempre. Mas, pra mim, nada valeu mais do que descobrir um caboclo loiro e faceiro como ele só. Estava eu, no Recife Antigo, assistindo ao show de Antúlio Madureira, dançando muito e feliz da vida. Meu pequeno filho começou a ficar impaciente, porque o dragão do "Eu acho é pouco" tinha sumido das vistas dele. Ele ficou fascinado pelo dragão. Só sossegou depois que entramos dentro do bicho (medo nenhum...). A certa hora, ele resolveu pedir "piiito". Onde eu iria arrumar um bendito pirulito por ali? Aliás, o ideal era nem conseguir o dito cujo porque estou relutando em ceder aos caprichos infantis do meu loirinho. Ao invés de pirulito, ele ganhou uma sombrinha de frevo. A felicidade foi ainda maior porque esse tinha se tornado o sonho de consumo durante o carnaval. Pouco minutos antes, ele tinha se agarrado com a sombrinha de uma menininha incauta que passava perto e deu o maior trabalho pra convencê-lo a devolver (as crianças não entendem o conceito de propriedade alheia). Depois de Madureira, veio a apresentação do maracatu rural, começando pelo tradicional Cruzeiro do Forte. João Victor, que até então estava ensaiando uns passinhos de frevo, começou a prestar atenção no ritmo. Daqui a pouco, estava ele criando sua própria coreografia: na hora da "loa", ele colocava a sombrinha no chão e se afastava um pouco, assim que começava a percussão, ele corria, pegava de volta o útil adereço e começava a pular freneticamente. Fiquei encantada com a cena! O danadinho é da farra! Aliás, ele adora percussão. Dá pra perceber pelas suas músicas preferidas. Bom gosto ele tem: gosta de Tom Zé, Vanessa da Mata, Maria Rita, Chico Science, Arnaldo Antunes e enlouquece ao som do frevo... Outro dia, eu estava indo trabalhar, ouvindo o cd "Paradeiro" e quando vejo, meu filho cantarolava a música "na massa", bem no clima, na maior animação. Percebendo esta veia percussiva do pequeno, o pai dele estava pretendendo presenteá-lo com uma alfaia. Pensei imediatamente: é o golpe de morte no silêncio que, definitivamente, não tem freqüentado a minha casa... Mas, quem sou eu para refrear a arte?