sábado, maio 15, 2010

O chamado


Quando João nasceu, figurava, entre as preocupações da mãe que vos fala, o cuidado com o umbigo dele. Desde quando ainda estava na maternidade, a enfermeira recomendou que passasse álcool (acho que de 90 graus) até que o dito cujo caísse. As muitas novidades, que descobri somente quando estava grávida (como a barriga que coça muito quando está esticando ou que mulher prenhe tem muitas cãibras, principalmente quando acorda), continuaram depois do parto... E, dentre elas, a atenção especial ao umbigo do recém-nascido. Atenção não meramente relacionada à higiene mas a questões bem mais abstratas... Bem, a questão-chave era: o que fazer com o cordão umbilical depois que ele caísse? Na verdade, eu nem tinha me feito esta pergunta mas a minha vizinha, que foi uma das primeiras pessoas a se encantar por João, não deixou de fazê-la e, antes que eu respondesse, ela já foi dizendo que eu JA-MA-IS deveria jogá-lo no lixo porque algum rato iria comê-lo e isso traria maus agouros pra vida do meu filhote. Como eu só não duvido da fé, levei em conta seus conselhos: o cordão deveria ser colocado numa porteira de uma fazenda ou em água corrente, de preferência, num rio. A primeira opção era inviável por motiivos óbvios. Então, lá iria eu dar um jeito de jogar o pedacinho umbilical no Capibaribe (não exatemente aquele dos poemas de João Cabral), por ser o mais próximo, embora não o mais limpo. Mas tudo se resolveu mais rápido do que eu pensava. Ao comentar com meu amigo Fernando, sobre o que dissera minha vizinha, ele prontificou-se a dar um ajuda. Como iria dali a alguns dias pro Sertão, a trabalho, perguntou se eu não queria que ele jogasse o cordão umbilical no rio São Francisco... Achei uma ótima idéia! E lá se foi a encomenda pro Velho Chico. Um momento histórico, com foto e tudo, pra ficar pra posteridade. O engraçado disso tudo é que, quatro anos depois, estou morando em Petrolina, cidade banhada pelo ilustre e grandioso rio. Há pouco tempo, fui com João fazer a travessia de barca entre Petrolina e Juazeiro e apresentei o rio pra ele. De São Francisco, ele virou "João Francisco", segundo meu filho insistiu em chamá-lo. Logo depois ele disparou a pergunta: "- Cadê meu umbigo?". Depois disso, fiquei pensando sobre o episódio. Dizem por aqui que, quem bebe a água do rio São Francisco sempre volta. Parece que posso afirmar outra coisa: quem joga cordão umbilical no mesmo rio, chega ao sertão, pelo chamado do rio. Só não sei se volta...

sexta-feira, abril 02, 2010

A LENTE DO HUMOR


A Ceça e Sérgio
Certos episódios são, inescapavelmente, um mote para um post. Há alguns dias, estava eu no centro da cidade do Recife, precisamente passando em frente à Igreja do Carmo, quando vi uma cena muito inusitada: um mendigo, desses que tem uma segunda pele de suor e poeira, cabelos compridos e despenteados, pés descalços, matulão nas costas e... uma câmera fotográfica nas mãos. O mais interessante é que ele imitava um profissional: abaixava, mirava o melhor ângulo, clicava e buscava um novo quadrante. Fiquei olhando, curiosa. Ele percebeu e começou a me fotografar... Um sorriso cúmplice, ainda que de longe. Não posso afirmar se a máquina funcionava ou não. Fiquei pensando sobre isso. Gostaria de poder sentar e conversar com uma criatura tão jocosa e que representou para mim uma espécie de crítica social, flagrada ali, aos olhos de quem passava, denunciando as contradições que o capitalismo e a modernidade criam a cada dia. Se ele é lúcido, estava se divertindo com a sua própria condição de mendicante, de flagelado, de marginal... Se ele é doido, devia estar se sentindo como um grande artista, um trabalhador que logo mais iria estar no laboratório, revelando a produção de um dia. Mesmo se a câmera funcionar, estas fotos não existem, não serão reveladas, não serão vistas, não serão mostradas... São tão invisíveis como, várias vezes, aquele homem pareceu aos transeuntes... Realidade cruelmente irônica...

quarta-feira, setembro 30, 2009

Auroras


Hoje, mais uma vez, revi "A aurora do homem", trecho antológico do clássico de Stanley Kubrick. Gosto tanto desta célebre passagem de "2001: Uma Odisséia no Espaço" que, se fosse cineasta, gostaria de tê-la criado. Isso não é pretensão, é só a audácia de imaginar o prazer que Kubrick sentiu, ao finalizar esta empreitada poética. O ritmo lento que remete à longuíssima duração da chamada Pré-História. O ancestral do homem à mercê da natureza, descobrindo-a muito lentamente para compreender seus sinais. A alegoria do obelisco é infinitamente precisa. Qualquer outro animal não iria reparar naquele objeto desconhecido. E isso nos torna diferentes: a perplexidade diante do novo e a ânsia de conhecê-lo. O olhar humano carrega a subjetividade, um infinito universo interior...

sexta-feira, setembro 25, 2009

Abandono


Brasil, 1914. Missionários salesianos chegam à Amazônia. Arrogam-se o direito de achar obscenos os corpos nus dos índios. Colocam roupas neles, sequestram as almas deles, apropriam-se da mente deles. Lançam sobre eles olhares que poluem, que transformam beleza em lascívia, pureza em pecado. Desde a chegada daqueles de além-mar, estamos à deriva, abandonados à nossa própria sorte. Foi catequese de um lado, escravidão de outro...
Abandonar a carne, tradução do termo latino que deu origem à palavra "carnaval". Depois o significado seria invertido: abandonar-se à carne. Ou comer vorazmente a carne? Mergulhar na carne? Afundar-se na carne? Estar faminto como o carnaval que a todos devora? Devoramos carne, dia após dia: a carne exposta na violência, na sexualidade desenfreada (esvaziada, reduzida, simplificada, empobrecida, dessignificada)...
Abandonamos nós mesmos, abandonamos o outro. Colha o abandono: adote uma flor, um arco-íris, uma criança...

sábado, maio 31, 2008

EQM


O que falar de si quando se está alheio? Em certos dias, não me reconheço. Não sei onde fui parar. Parece que pra saber quem sou, tantas vezes tive que escapar de mim... Há pouco, senti a dor de ir embora, como se estivesse prestes a deixar o mundo. São só sensações... Sentimentos que destroçam a alma. Vou fechar os olhos, sentir o cheiro das flores, respirar suave e profundamente, pra abrir um horizonte... Faça-se a luz!

sábado, abril 05, 2008

Decifra-me...


DIANTE DE TANTOS RASCUNHOS NÃO POSTADOS, RESOLVI MODIFICÁ-LOS E PUBLICÁ-LOS (APROVEITANDO MOMENTOS PASSADOS DE INSPIRAÇÃO):

Ela, angustiada, olhava o mar. A imensidão azul terminava, invariavelmente, no enigma do horizonte. Pensou sobre seu futuro. Sobre incertezas. Tudo o que sabia naquele momento era que, por mais que tentasse (e tentou!), não lembrava do rosto dele. A fisionomia daquele com quem tinha partilhado tanta intimidade fugiu-lhe. Até quando? Talvez nunca lembrasse. Seria melhor assim? Não tinha esquecido nada do que aconteceu. Mas tudo vinha à mente sem esse rosto. Desfez-se de todas as fotografias dele. Sua memória acompanhou seu ato. Bloqueou todas as recordações daquele rosto para o qual tantas e tantas vezes olhou...

Encontrara Heitor, pela primeira vez, cinco anos antes. Circulava pelos corredores de uma exposição fotográfica com uma amiga da faculdade. Resolveu ir ao banheiro. Quando fechou a porta do reservado, percebeu um barulho estranho. Tentou sair. Em vão. A fechadura tinha quebrado. Foi tomada pelo desespero. Suou frio ao perceber que não tinha como sair dali: as paredes laterais iam quase até o teto e a porta de vidro não suportaria seu peso.

- Malditos arquitetos! - praguejou.

Lembrou que tinha deixado a bolsa com Suzana e não poderia usar o celular. Desesperou-se ainda mais porque o espaço cultural iria fechar dali a pouco tempo. Respirou fundo e gritou. Com todas as suas forças. Nada! Continuou gritando, por um tempo que pareceu eterno. Ouviu uma voz, bem longe, perguntar: - Posso entrar? Ela respondeu sim, pedindo ajuda. Um homem viera para ajudá-la. Ela nem pensou no inconveniente desta situação. Apenas queria sair urgentemente dali...


domingo, março 09, 2008

Insônia

Suportar o mundo, perseguindo a alegria da infância. Colher cinzas, alimentando flores. Vestir mortalhas, enquanto gera. Penar por culpa, parindo novos calafrios. Alma renascida a cada golpe. Peito que regela para voltar a abrasar, inteiro, pulsante e transbordante. Os extremos do caminho reforçam: depois da derrota, recompõem-se as energias. Pela coragem, move-se o destino.

sábado, março 01, 2008

Cheiro de orvalho...

Emoções? Temos muitas pela vida. Tantas que sequer lembramos de todas, inclusive, por uma questão prática: a memória é seletiva, não comporta tudo o que vivemos! Imagine fazer um retrospecto da vida, lembrando de absolutamente tudo. Seria infindável... Dificultaria até a organização do raciocínio. Lembramos do que nos marcou muito. Seja algum de bom, ou de ruim. Ontem, não sei por que motivo, ocorreu-me uma lembrança que há tempos eu não tinha. Uma reminiscência que talvez tenha algo a ver com uma mensagem em que Ebinho, velho amigo da infância, aludia a uma foto do álbum (da minha página do orkut), relembrando os idos dos anos 70, quando, ainda em muito tenra idade, viramos vizinhos e amigos-irmãos, em Garanhuns. Esses momentos trazem muita emoção: vivenciamos, de longe, um tempo que não volta mais e pensamos em quanto tempo ainda nos resta... Mas, voltando à lembrança que me veio à memória ontem, revivi aquela sensação de quando voltei a Garanhuns, pela primeira vez, depois que tinha ido morar em Recife. Foi uma sensação única e uma emoção da qual não esquecerei. Aconteceu de supetão, no final dos anos 80, quando uma tia, passou na minha casa e fez o convite pra irmos fazer um passeio. O destino final foi a minha cidade natal, onde passei os bons e maus momentos da minha infância. A volta trouxe lágrimas aos olhos, incontrolavelmente. Elas rolavam por si. Algo incomum pra mim, que sempre evitei chorar em público. Tinha vergonha... Era quase um tabu. Sinal de derrota, ou coisa assim, que o meu orgulho (ainda infantil) aprendeu a controlar... Isso era tão forte que, certa vez, houve um acidente na vila em que eu morava que resultou na morte de um menino. Ele era muito reservado, quase não brincava com a gente e vivia sempre quieto, pelos cantos. Quando ele estava, timidamente, começando a se enturmar, veio o dia fatídico: seu irmão mais velho jogou thinner na churrasqueira e o fogo o atingiu. Lembro de ter ido ao velório com minha mãe (no interior, os velórios aconteciam em casa mesmo). A parte mais comovente foi quando retiraram uma toalhinha que cobria o seu rosto. Era pra mim o primeiro assombro da morte. Chorei durante a semana inteira que se seguiu. Sempre atrás do sofá de casa, pra que ninguém testemunhasse minhas lágrimas. Essas lágrimas, tão contidas, transbordaram no meu retorno a Garanhuns. Saíram da alma. Compuseram uma emoção profunda, visceral, primordial... Ali era o lugar que fazia parte de mim, pra onde eu não voltaria jamais, a não ser nas minhas memórias: naqueles quintais onde reinávamos absolutos, terreno das brincadeiras e da imaginação, refúgio que os adultos não compreendiam e não poderiam invadir; da sensação de liberdade, ao correr pelo meio da rua, no parque, na praça, no contato com a areia (primeira transgressão); no cheiro de orvalho, presente em quase todas as manhãs... Ah, o cheiro de orvalho... Este é particularmente marcante. Quando comecei a estudar na Federal, sempre passava, de ônibus, na frente do prédio da Sudene, onde uma fonte irrigava o mato que, por isso, exalava um cheiro parecido com aquele do orvalho. Automaticamente, eu fechava os olhos e, simbolicamente, retornava a Garanhuns, porque a memória é ativada pelos sentidos e, como dizia Calvino, nas "Cidades Invisíveis", na fala do veneziano Marco Polo: "cada vez que faço a descrição de uma cidade, digo alguma coisa sobre Veneza", o que me permite dizer que, na minha contemplação sobre Recife, eu procurava a minha cidade, nas entrelinhas. Pra terminar, um pouco mais de Calvino: "- As imagens da memória, uma vez fixadas pelas palavras, apagam-se - constata Polo. - Pode ser, Veneza, que eu tenha medo de perdê-la de uma vez se a descrevo. Ou pode ser, falando de outras cidades, que eu já a tenha perdido pouco a pouco". O título inicial deste post seria "Lágrimas". Algumas vieram enquanto escrevia. Mudei de idéia. Preferi o orvalho: hoje moro por trás da Sudene. Retorno simbólico à fonte... ao útero.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Sobre praias e ogros...

No fim-de-semana pós-carnavalesco, eu e meu consorte resolvemos curar a ressaca da folia (mais minha do que dele) na praia. Acordamos cedo, providenciamos umas cervejas, uns petiscos, os kits e brinquedinhos de João Victor (no plural, porque a presença de criança amplia consideravelmente a bagagem). Tudo pronto, colocamos o "pé" na estrada e fomos pro litoral sul, meio outsiders, pra fugir da fúria de Boa Viagem... Decidimos ir pra Enseada dos Corais, cuja tranqüilidade faz jus ao que uma praia deve inspirar... Porém, como chegamos mais tarde do que pretendíamos, fomos pra Xaréu. Só iríamos pra Enseada quando o sol baixasse porque, mesmo tendo levado cadeiras e guarda-sol, o pequeno (e mui branco) João não iria agüentar o mormaço. Final de tarde chegou, lá fomos pra o nosso destino previsto. De repente, a praia quase deserta, aquele marzão na frente, aquele tapete de areia pra correr com João. Parecia propaganda de refrigerante (aliás, de refrigerante não porque, apesar de quase sempre serem ambientadas em belas praias, sempre tem meio-mundo de gente, portanto devo dizer: propaganda de plano-de-saúde-família). Munidos de pás, baldes e outros apetrechos infantis, fomos brincar na areia. Como as crianças têm a incrível capacidade de transformar o inusitado em algo absolutamente trivial, a certa altura, sinto aquele cheirinho-denúncia, aquele alerta de que "havia algo de podre no reino da Dinamarca" ou, mais precisamente, naquele bumbum branquelo do meu filhote... Problema número um: ele só estava de sunga (obviamente porque não dava pra deixá-lo de fralda descartável na praia); Problema número 2: eu não havia lembrado de colocar lenços umedecidos na volumosa bagagem (AAAAAAAAAAhhhhhhh!); Problema número 3: onde colocar aquele "lixo"? No lixeirinho do carro? De jeito nenhum! Bem, perdoem-me os ambientalistas (Sheilinha que não me ouça...), mas tive que enterrar os dejetos mal-cheirosos (a redundância vale quando se trata de cocô de criança!) e ainda ir lavar a sunga e a bunda de João no mar. Que cena! O pior foi ter que fazer as duas coisas, quase ao mesmo tempo, diante de um mar bravio. A sunga escapou da minha mão e lá vou eu, correndo, com João no braço, pra recuperá-la. Iemanjá deve ter rido um bocado, se não tiver ficado muito irada com a sujeira que coloquei na casa dela... Certamente, não vou esquecer este dia que, apesar da merda (desculpem o trocadilho), foi muito divertido! Desde a chegada à praia, demos boas gargalhadas com João. Quando estávamos indo pra Xaréu, por Itapoama, fiquei em dúvida se deveria pegar a estradinha da direita ou esquerda. Pedimos informação a um transeunte: - "Por favor, onde fica Pedra de Xaréu (como estava escrito em placa bem anterior àquele trecho)?" Ele indicou o caminho e seguimos. Segundos depois, João dispara: - "Pedra de Shrek! Rá-rá-rá!" Conclusão: pra ele, finalmente, descobriu-se onde morava aquele ogro cheio de graça...

domingo, fevereiro 17, 2008

Água

Quando quis ser a chave dos seus olhos
Vislumbrei deleites.
Apaguei todos os pontos de fuga.
Desenhei no horizonte.
Percorri seus signos,
à procura de pistas,
do que restara de mim.
A brasa consumiu-se.
O inverno irrompeu,
apagando os caminhos.

Um bloco a mais...

Uma maré de gente. Espumas coloridas. Brilhos que enchem os olhos. Lirismo que mareja os olhos. A embriaguez escorrendo no suor. O calor que abraça, abrasa e enche o peito com uma lufada de brisa marinha, lá no Alto da Sé, com a vista das Marins. O carnaval vai e volta, preenche a memória, recorda o sorriso, a infância e a beleza do que liberta a alma. O último regresso viaja no ar, evocando os carnavais vindouros: "Falam tanto que meu bloco está/dando adeus pra nunca mais sair/e depois que ele desfilar/do seu povo vai se despedir/no regresso de não mais voltar/suas pastoras vão pedir/ Não deixem não/que um bloco campeão/guarde no peito a dor de não cantar/um bloco a mais/é um sonho que se faz/nos pastoris da vida singular/É lindo ver, o dia amanhecer/com violões e pastorinhas mil/dizendo bem/que o Recife tem/o carnaval melhor do meu Brasil. "(Getúlio Cavalcanti)

terça-feira, fevereiro 05, 2008

Segura o caboclo!

Neste carnaval, brinquei pouco. As circunstâncias não foram favoráveis à folia de Momo. Não pra mim. Isso não significa que tenha sido muito ruim. Não foi como eu gostaria. Mas, posso dizer que as poucas horas carnavalescas tiveram seus momentos inesquecíveis. Uma delas foi encontrar uma cobra em pele de coelha nas ladeiras de Olinda. A coelha era laranja! Aliás, Eva ganharia, de longe, o prêmio originalidade na fantasia, nos dois momentos em que a encontrei neste carnaval. Na primeira vez, ela estava com uma fantasia, de inspiração chinesa, cujo nome não lembro porque, pra lembrar, era preciso não ter bebido nada, o que não era o meu caso. Inclusive, se ela bebesse muito não iria lembrar o pomposo título, atribuído por ela, ao seu look carnavelesco. Encontrar com Ana, a romana, também foi especial, apesar dos muitos desencontros entre nós nestes dias. Ana é Ana. Alegre ou triste, ela é linda, sempre. Mas, pra mim, nada valeu mais do que descobrir um caboclo loiro e faceiro como ele só. Estava eu, no Recife Antigo, assistindo ao show de Antúlio Madureira, dançando muito e feliz da vida. Meu pequeno filho começou a ficar impaciente, porque o dragão do "Eu acho é pouco" tinha sumido das vistas dele. Ele ficou fascinado pelo dragão. Só sossegou depois que entramos dentro do bicho (medo nenhum...). A certa hora, ele resolveu pedir "piiito". Onde eu iria arrumar um bendito pirulito por ali? Aliás, o ideal era nem conseguir o dito cujo porque estou relutando em ceder aos caprichos infantis do meu loirinho. Ao invés de pirulito, ele ganhou uma sombrinha de frevo. A felicidade foi ainda maior porque esse tinha se tornado o sonho de consumo durante o carnaval. Pouco minutos antes, ele tinha se agarrado com a sombrinha de uma menininha incauta que passava perto e deu o maior trabalho pra convencê-lo a devolver (as crianças não entendem o conceito de propriedade alheia). Depois de Madureira, veio a apresentação do maracatu rural, começando pelo tradicional Cruzeiro do Forte. João Victor, que até então estava ensaiando uns passinhos de frevo, começou a prestar atenção no ritmo. Daqui a pouco, estava ele criando sua própria coreografia: na hora da "loa", ele colocava a sombrinha no chão e se afastava um pouco, assim que começava a percussão, ele corria, pegava de volta o útil adereço e começava a pular freneticamente. Fiquei encantada com a cena! O danadinho é da farra! Aliás, ele adora percussão. Dá pra perceber pelas suas músicas preferidas. Bom gosto ele tem: gosta de Tom Zé, Vanessa da Mata, Maria Rita, Chico Science, Arnaldo Antunes e enlouquece ao som do frevo... Outro dia, eu estava indo trabalhar, ouvindo o cd "Paradeiro" e quando vejo, meu filho cantarolava a música "na massa", bem no clima, na maior animação. Percebendo esta veia percussiva do pequeno, o pai dele estava pretendendo presenteá-lo com uma alfaia. Pensei imediatamente: é o golpe de morte no silêncio que, definitivamente, não tem freqüentado a minha casa... Mas, quem sou eu para refrear a arte?

domingo, fevereiro 03, 2008

Um novo nem tão novo assim...

Considerando um certo misticismo que trago dentro de mim, resolvi mudar o nome deste espaço, na firme expectativa de que um novo nome, pra um velho blog abandonado, reacenda meu hábito, não tão assíduo, de escrever. Às vezes, tenho uma certa resistência em escrever, do mesmo jeito que relutei em decidir fazer psicoterapia. Neste último caso, fui atropelada por alguns acontecimentos nefastos que não me deixaram outra alternativa. Sempre negligenciei minhas angústias, minhas dores, meus problemas... Na verdade, tendia a minimizá-los e, "jogá-los embaixo da cama", pra tentar resolver depois... Um dia, não cabia mais nada embaixo da cama, tudo começou a escorrer, desabar, rolar pela minha cabeça, sem controle... Não tive escolha: chego eu no consultório com um monte de nós pra desatar, buscando o tão almejado auto-conhecimento. Primeira descoberta: nas primeiras sessões, descobri que não sou paciente (!!!!!!!!!!!!!) . Eu jurava que, com um pouquinho de esforço, eu poderia ser budista. Não era nada disso... Percebi que conhecer a si próprio é extremamente doloroso. A diferença é que é uma dor guiada (digamos assim). Um processo "cirúrgico" (sem anestesia, diga-se de passagem) que vai impedir complicações futuras e deixar uma cicatriz só.
Provavelmente, como escrever também é um exercício de auto-conhecimento, eventualmente, adio as dores. Inclusive porque em certas horas, o silêncio expressa mais fidedignamente os estados de espírito (sombrios ou não). De volta à labuta verbal, vou tentar registrar esse caminho, apreciar as luzes interiores, as esperanças, as preciosidades, as confissões, os bálsamos, as floras que contenho. Certa vez, recebi uma mensagem de alguém muito querido, com quem gostaria de ter mais contato. Era uma frase de D. Hélder que dizia: "Se as pessoas te pesam nos ombros, leve-as no coração." Palavras muito marcantes que tenho tentado transformar em um dos lemas da minha vida. Hoje, outra mensagem trouxe mais reflexões. Enviada por Lu, a diva menor (termo relacionado a tamanho físico mesmo, porque é uma das baixinhas mais charmosas que conheço, de alma grande e bela), ei-la (como diria Veri):
"a água se ensina pela sede;
A terra, por oceanos navegados;
o êxtase, pela aflição;
A paz, pelos combates narrados;
O amor, pela cinza da memória
E, pela neve, os pássaros".
(Emily Dickinson)
A vida segue, deixando seus rastros de beleza e dor, transformando tudo em volta. A "cara" do blog, assim como o nome, mudou. Achei que não faria sentido montar um novo blog mas modificá-lo, assim como o tempo fez comigo, desde que inaugurei este cenário.

sábado, novembro 03, 2007

Pela paz...



"A desculpa não evita a mágoa, mas faz um bom curativo no machucado...Há pessoas que magoam as outras e não conseguem pedir desculpas nunca. Percebem o erro, mas não conseguem exteriorizar o arrependimento. Ficam dóceis, suaves, mas a palavrinha mágica... Essa não sai. O magoado vai se afastando, afastando e aquele lindo relacionamento se perde... Acaba!Aprendamos, pois a pedir desculpas e a desculpar. É em prol de uma amizade... E ter amigos verdadeiros, vale a pena. Se o opositor não quiser desculpar... Problema dele. Você cumpriu a sua parte no acordo de Paz da humanidade! E depois, desculpar; desculpar-se - sim - porque você pode desculpar a você mesmo por agressões que você faz a si próprio; e ser desculpado, vai revelar que você é uma pessoa humilde. E como humildade não é humilhação, estaremos todos atuando no coração e no inconsciente coletivo. Estaremos de bem com a vida."

terça-feira, novembro 28, 2006

A morte do coiote

Aos assíduos ou antigos espectadores do desenho animado "Papaléguas", lamento informar: o coiote morreu! Não pude anunciar a morte da Rê Bordosa mas, em primeira mão, posso alardear a notícia acima. Depois de tantos tropeços, tantas armadilhas mal-sucedidas, tantos reveses na caçada implacável ao Papaléguas, o coiote passou dessa pra outra, não necessariamente melhor. Lugar-comum tornou-se a identificação com o desajeitado coiote, afinal, muitos se solidarizaram ante a sua saga contra o ágil, esperto e cínico protagonista de penas e pernas velozes. Talvez alegoricamente, para os corações de esquerda, o coiote representasse o anti-herói, o avesso do ideal de sucesso capitalista, cujos planos nunca deram certo, nem sequer chegaram perto do êxito. Aos fãs do finado coiote, quero dizer que, quanto ao Papaléguas, não nutro exatamente simpatia, nem o acho tão esperto... Na verdade, o coiote é que sempre foi muito burro! E não estou aqui defendendo que os burros devam morrer ou ser exterminados. O coiote era previsível, mudo, apático e estúpido: sabia que jamais iria alcançar o Papaléguas na corrida e muito menos compensar a limitada velocidade com engenhosidade. Logo que ia executar um plano, logo deixava pistas visíveis ao seu arquiinimigo, que só precisava correr, rir e fazer um irritante "bi-biiii" (alíás, ele emite som). Em suma, o coiote era um fracassado, correndo atrás de vãs esperanças que nunca o levariam a lugar nenhum...
Em tempo, aviso àqueles que ainda não morreram de susto ou não inundaram a tela de lágrimas, que o coiote que morreu não foi aquele do desenho animado, foi outro, bem parecido, a quem são dirigidas as palavras acima. Morreu no sentido figurado, no terreno do subjetivo, do simbólico, onde, felizmente, existe um idiota a menos...

terça-feira, novembro 21, 2006

Cerveja sem álcool

Cá estou eu de volta, após longa ausência. Imaginem-me vocês, com espanador em punho, eliminando moscas e possíveis teias de aranhas presentes no ambiente deste blog. Confesso acreditar que, para ser uma blogueira assídua, três coisas, pelo menos, são importantes: disciplina pra administrar eficientemente o tempo (que não é uma das minhas grandes qualidades); disposição pra varar madrugadas, elaborando posts (algo difícil pra mim, uma declarada amiga de Morfeu) e, por fim, inspiração ou melhor, aquele mote que representa o "pontapé inicial" na hora de criar o post. Como estes três requisitos nem sempre se conjugam, tenho deixado a desejar nas minhas incursões bloguíticas.
O "mote" desta semana, sem nenhuma alusão a Gustavo Krause (por favor!), surgiu de minha visita ao blog de Marconi Leal (http://marconileal.zip.net: visitem e divirtam muuuuuuito!) , colega do convívio social e etílico que por ora está morando em São Paulo e cada vez mais surpreendente na "arte" de blogar. No seu último post, "Cem metros rasos com ressaca", ele imaginou uma competição alcoólica, engraçadissíma e trágica pela dimensão da bebedeira. Ao ler tão criativo delírio (que deve ter sido parido sob efeito de bebida ou outra coisa afim), logo me ocorreu que, num campeonato deste cabe o chavão: "o importante não é ganhar, é competir", pois logo me imaginei participando do torneio e rememorando ressacas homéricas, indescritíveis e intangíveis pra quem não costuma beber. Das ressacas obviamente não sinto falta mas, desde que adentrei o mundo da gravidez e da maternidade, nunca mais tive o prazer de pedir em alto e bom som: "-Garçon, por favor, uma cerveja bem gelada!". Agora, tenho que me contentar com uma singela pergunta: "Vocês vendem cerveja sem álcool?". E até a dita cerveja sem álcool (e sem muita graça) tenho evitado. Porque a bicha dá aquela vontade de mijar, depois de um tempo, começa a encharcar e não dá nem um formigamentozinho ou algo próximo de uma leve embriaguez (apesar de um teor mínimo de álcool, que vai de 0 a 1,5%).
Embriaguez que facilita a comunhão, porque beber é eminentemente social. Embriaguez que libera pensamentos, palavras, expressões e afeições. Claro que sem bebida é possível, guardadas as proporções e ocasiões, vivenciar tudo isso mas, aquele torpor, aquele relaxamento que o álcool provoca, paradoxalmente, acaba tornando tudo mais intenso... Não estou aqui fazendo apologia às bebidas alcoólicas mas afirmando categoricamente que uma cerveja que inclui o "sem" é "sem" mesmo: sem graça, sem leveza (aquele "flutuar" gostoso"), sem a intensidade de tudo o que envolve uma mesa de bar e, pra não dizer que tudo é ruim: sem ressaca!

sexta-feira, outubro 13, 2006

Quero meu bebê!

Depois de sete meses de convivência diária (principalmente noturna, no íntimo momento de amamentação), vou dormir sem o meu bebê. Hoje o pai veio buscá-lo para passar a noite com ele, já que amanhã estarei trabalhando o dia todo. Como irei suportar estas pouco mais de vinte e quatro horas sem o meu pequeno e amado filho? Pode parecer frescura, e por mais que a gente às vezes reclame da trabalheira que dá cuidar de um bebê, mas uma noite distante está me parecendo uma eternidade... Como amanhã ele completará sete meses, eis uma oportunidade pra que ele possa criar um pouquinho de independência e, no meu caso, encaminhar o meu projeto de não ser aquela mãe superprotetora, que não deixa o filho sair debaixo da asa... Só espero que a noite dele seja tranqüila e agradável.

sábado, outubro 07, 2006

Entre números e lembranças

Hoje, folheando o jornal de amanhã, deparei-me com uma matéria intitulada "Sim para o casamento", cujo conteúdo destacava dados recentes do IBGE, sobre um aumento de 7,7% no número de uniões conjugais em 2004, em relação ao ano anterior. Sobre as separações, essas teriam caído 7,4%, assim como os divórcios, cuja redução teria sido de 3,2%, ainda comparando-se os anos de 2004 e 2003. Estatísticas, no minímo intrigantes, que parecem ter vindo de outro planeta, porque no meu (ainda que modesto) círculo social separações tem sido uma constante desanimadora. Vale registrar aqui a exceção: Ceça e Sérgio, casados por convicção, cúmplices e extremamente criativos e mutuamente respeitosos no tocante à relação, o que justifica uma união estável entre tantas outras que desmoronam. Bom exemplo de que o amor nem sempre envelhece e pode manter as pessoas unidas.
Ironicamente, encontrei esta matéria na semana em que estou me separando, como tantos outros casais, de comum acordo e com aquela sensação desagradável que a decisão apenas formaliza uma situação já posta: a indisposição para manter a relação, a desistência de negociar e ceder, enfim, o fim, já sem o calor das lágrimas desesperadas, sem os arrebatamentos, sem maiores discussões, sem emoção... Triste pensar que tudo se torna banal, que aquilo que outrora parecia interminável ou inolvidável (aludindo a um poema de Neruda de que gosto muito) simplesmente terminou... Na verdade, vamos nos dando conta de que há muito já acabou... Consolo é pensar que a vida é feita de fins e recomeços. Que a dor de hoje poderá ser a superação de amanhã. Um novo começo, uma nova vida, um filho, algumas cicatrizes e muitas lembranças. Saldo de um casamento. Mais um dado estatístico.

quarta-feira, outubro 04, 2006

15 centímetros ou mais

O cinema criou e imortalizou o estereótipo da mulher fatal: maquiada, penteada, bem vestida e de salto alto. Basta lembrar Marilyn Monroe com seu vestido esvoaçante e as belas sandálias de salto (com o detalhe das unhas pintadas de vermelho) ou os filmes estrelados por Catherine Deneuve, munida de muito charme e pares de saltos. No entanto, longe de discordar completamente de que salto alto é uma arma de sedução (e em alguns casos, literalmente uma arma), digo que não consigo me adaptar ao dito cujo. Nas primeiras cinco passadas, quase posso encarnar a diva loira mas logo vem o desconforto e a certeza de que salto alto atenta contra a lei da gravidade, já que o pé procura desesperadamente um apoio mais estável, mais abaixo; e depõe contra a evolução humana: hominídeos lutaram por gerações para que pudessem tornar-se bípedes e de uns tempos pra cá ficou mais difícil andar para aqueles que tentam se equilibrar nos saltos, afastando os pés do chão (incluindo aqui as poderosíssimas drags queens com seus saltos estratosféricos). Acredito piamente que andar de salto alto é quase tão incômodo quanto mover-se de quatro... A propósito, em nome do conforto dos pés e do desvario da mente, existe algo mais agradável do que andar de pés descalços na areia da praia?

sexta-feira, setembro 22, 2006

A falência do panfleto

Sinal dos tempos? Apocalipse? O que dizer da indústria fonográfica de hoje? Sempre se produziu música boa e ruim, mas atualmente há muito espaço para coelhinhos, cachorrinhas e outras anomalias zoológicas e ontológicas. De tanto joio, está cada vez mais difícil vislumbrar o trigo...
Usado indiscriminadamente o termo "música popular" pode abrigar grande diversidade de ritmos, melodias, letras e principalmente uma gradação vastíssima de qualidade que vai do zero ao cem. Em tempos de crise da qualidade musical, boas produções ficam reduzidas a um pequeno universo de apreciadores, destacando-se no meio de muita porcaria, como redentoras do bom gosto (embora longe de representar uma unanimidade que, aliás, realmente é burra, como diria Nelson Rodrigues).
Esse preâmbulo sobre música justifica-se devido aos inconvenientes do período eleitoral em que, invariavelmente, a profusão de decibéis se eleva numa proporção inversamente proporcional à qualidade sonora. Dia após dia, somos surpreendidos, nos mais diversos horários, por famigerados carros de som com jingles capazes de arrepiar qualquer gosto minimamente seletivo.
Aturar a intervenção do poder público em nossas vidas é uma coisa, afinal, abdicamos de uma parcela da liberdade individual em nome da sobrevivência (não só física mas moral, como reza o "contrato" social). Não pretendo fazer mal uso da minha liberdade nem sou anarquista mas, convenhamos que sempre é preciso reclamar para que outrem não vilipendie nossos direitos. Cadê o bom senso?
Aqueles que almejam compor (ou permanecer) no poder público já começam impondo sua presença, invadindo o espaço alheio de forma estrepidante, através dos condenáveis carros de som. Se por uma questão de cultura política ou aversão ao comportamento reprovável de muitos parlamentares e portadores de mandato executivo, poucos leêm os panfletos com as propostas dos candidatos, não temos que aturar a propaganda sonora. Os "santinhos" chamam menos atenção do que uma gestão limpa, eficiente e comprometida, algo tão incomum quanto música de boa qualidade.
O dia das eleições bate à porta: vamos escolher candidatos sérios, coerentes, altruístas e que respeitem os cidadãos, inclusive os futuros cidadãos (bebês, entre os quais incluo o meu filho que, em sua tenra idade vem sendo incomodado pelos estrondosos carros de som).